Assistência

A rua se tornou morada na pandemia

Serviços de auxílio às pessoas em situação de vulnerabilidade percebem aumento de demanda nos últimos meses

Jô Folha -

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Aos 54 anos, ele sonha em poder construir no terreno que ganhou (Foto: Jô Folha)

Não precisa andar muito pelas ruas da cidade para notar que o número de pessoas pedindo alguma quantia em dinheiro ou alimentos aumentou. Muitos perderam o emprego devido à pandemia e precisaram recorrer a novas buscas, outros não têm acesso ao direito básico da moradia e acabam dependendo dos serviços da Secretaria de Assistência Social (SAS) e de instituições independentes do município. Entretanto, todos possuem um desejo em comum: o direito a uma vida digna.

O responsável pela SAS, José Olavo Bueno dos Passos, explica que a pasta tem trabalhado com serviço de abordagem, ou seja, os técnicos localizam essas pessoas, dialogam sobre o serviço prestado e tentam encaminhá-los para o atendimento, que hoje está localizado no Colégio Municipal Pelotense. “Lá eles dormem e contam com serviço de alimentação, higiene, assistência médica e psicológica”, relata. Esse serviço já existia no município, mas através da Casa de Passagem e do Centro Pop. Com a pandemia e o aumento da demanda, a SAS uniu os setores em um só local. Atualmente, cerca de 80 pessoas em situação de vulnerabilidade utilizam a assistência - anteriormente menos de 30 dormiam na Casa de Passagem.

A ideia da SAS, segundo o secretário, é reformar um local para manter o serviço unificado de forma permanente. Ainda não há um projeto nem a definição do lugar, mas Passos garante que a ideia está em análise e em tratativas na Prefeitura. Agora, a equipe está empenhada analisando a situação de cada morador que utiliza os serviços. A intenção é identificar se essas pessoas possuem moradia e família que possam auxiliar nesse processo. “Nenhum deles será desassistido, é uma ação para ajudar e não atrapalhar”, frisa o secretário.

JF_7620No Colégio Pelotense são atendidas 80 pessoas por dia (Foto: Jô Folha - DP)

A reportagem percorreu as ruas da cidade e as evidências estão à mostra: colchões e lonas nas calçadas e alguns cobertores molhados abandonados devido às fortes chuvas desta semana remetem à realidade dos pelotenses que precisam fazer da rua sua casa. No Pelotense, a chefe de setor do Centro Pop, Taís Mendes, e a gerente do serviço de média complexidade da SAS, Andréia Iriart, contam que a demanda aumenta e é possível perceber isso pelos novos rostos que aparecem por lá todos os dias. “Muitos perderam o emprego e precisaram recorrer ao serviço”, dizem. Taís participa das abordagens diariamente e percebe que o número de pessoas em situação de rua cresceu nos últimos meses, porém afirma que muitos resistem aos diálogos e preferem não procurar assistência. “Mas a nossa torcida é para que acessem, assim podemos fornecer o mínimo garantido por direito”, completa.

Um dos que ocupam o prédio da escola municipal é um homem de 54 anos. Não foi a pandemia que o levou às ruas, mas as consequências de uma vida que com certeza não teve oportunidade de acessar o básico. Com a perda da mãe, esposa e duas filhas, ele conta que não houve outra alternativa a não ser procurar refúgio nas calçadas. Há cerca de três anos ele sabe a dor diária de não ter mais uma família e um lar. Por já acessar os serviços prestados pelo Centro Pop ele ficou sabendo da unificação e desde março faz do Pelotense sua casa. “Já pensou eu na rua com essa doença e com esse frio?”, questionou. 

Com as equipes fazendo de tudo para manter a higiene e o distanciamento recomendado para a época, quem opta por estar lá também acaba, de certa forma, se protegendo um pouco mais do novo vírus. As lembranças das marquises não são boas na memória do acolhido. “A sociedade nos enxerga como um lixo, passamos por abordagens truculentas e estamos expostos a sol e chuva”, desabafou. Agora, com a doação de um terreno, o cinquentenário sonha em poder construir uma nova moradia, mas até lá, ele garante: “Aqui tenho teto e carinho”.

JF_7616Número de pessoas pedindo auxílio aumentou (Foto: Jô Folha - DP)

Reflexos no Albergue

Há 42 anos trabalhando no local, a presidente do Albergue Noturno Pelotense Adolfo Fetter e assistente social Sônia Monteiro tem uma certeza: a quantidade de gente procurando pelo serviço aumentou consideravelmente nos últimos meses. Porém, com a pandemia a casa precisou reduzir seu público para fornecer mais segurança a todos. Anteriormente, cerca de 50 pessoas dormiam no local, agora, esse número precisou baixar para 25. “Estamos sempre lotados e sempre tendo que deixar alguém de fora”, lamenta.

Por lá, os acolhidos tomam banho, jantam, dormem e participam de uma escala para manter tudo organizado e limpo. As filas na hora da higiene e das refeições são controladas, as camas estão mais espaçadas e as mesas não somam mais que quatro pessoas. Mas com o aumento dos pedidos, o albergue resolveu estender os serviços e passou a fornecer almoços aos sábados e domingos. São cerca de 180 refeições por final de semana e, de acordo com a presidente, não há um que não apareça alguém que, até então, nunca tinha precisado ir até o local. 

Quem desejar contribuir pode entregar as doações no local, na Padre Felício, 320.

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